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“Foi preconceito social e sexual”, diz física

Posted by Daniela Alves em fevereiro 20, 2008


Jovem ficou confinada sob a alegação de falta de documentação; brasileira estava apenas sem voucher do hotel em Portugal

Professor do Instituto de Física enviou fax à imigração no aeroporto de Madri e ao consulado brasileiro, mas não obteve resposta

Seria o primeiro congresso internacional de que participaria a jovem mestranda de física da Universidade de São Paulo. Estaria em companhia de alguns dos mais importantes pesquisadores do mundo na área de partículas elementares e, inclusive, apresentaria um trabalho seu. Mas não deu nada certo. No Instituto Superior Técnico de Lisboa, onde se realizou o congresso na semana passada, afixou-se um pôster com o aviso em inglês: “Patrícia Camargo Magalhães, 23 anos, mulher. Deportada para o Brasil pelas autoridades espanholas”.
Patrícia viajaria a Lisboa via Madri por uma questão de preço. “O vôo pela Iberia saía mais em conta”, diz ela. Suas passagens foram pagas com dinheiro da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Ela tinha reservas em um hotel de Lisboa. Levava 490 euros (R$ 1.251) em dinheiro, além de cartões de crédito e material para a estadia.
Em vez do congresso, no entanto, Patrícia passou três dias presa no aeroporto de Madri. Em uma das salas em que ficou confinada em companhia de 30 brasileiros e de outros tantos venezuelanos e africanos, com apenas 9 metros quadrados e fechada por duas portas blindadas, foi obrigada a dormir e alimentar-se no chão, por causa da superlotação. Para piorar, tinha sido privada de objetos de higiene pessoal, inclusive escova de dentes.
O argumento para a “negação de entrada na fronteira”, Patrícia só conheceu na terça-feira passada, pouco antes de ser levada ao avião da Iberia que a traria de volta ao Brasil: “Carece de documentação adequada que justifique o motivo e condições relativas a sua estadia”, dizia a carta que recebeu com o timbre do Ministério do Interior da Espanha. No campo reservado para a discriminação dos documentos faltantes, entretanto, nada foi escrito.
Ao chegar a Madri, às 9h30 de domingo (10/2), pediu-se a Patrícia que apresentasse o documento de reserva (voucher) no hotel de Lisboa. Ela estava sem ele e, por isso, foi retirada da fila da imigração e conduzida para local reservado. O vôo para Lisboa estava marcado para as 11h do mesmo dia. A estudante pedia providências, mas a resposta era sempre: “Senta e espera. Se perdes o vôo, te darão outro depois”.
Depois de quatro horas, um policial apareceu com uma pilha de passaportes e foi chamando os brasileiros que iam então sendo liberados. “Percebi que todos os homens tinham sido liberados e só restaram as mulheres, em sua maioria negras e mulatas. Quando, depois de cinco horas de espera, chegou um avião da Venezuela, muitas outras mulheres se juntaram a nós”, escreveu Patrícia em um texto divulgado ontem.
O professor titular do Instituto de Física da USP, Manoel Roberto Robilotta, 60, orientador de Patrícia e que foi um dos conferencistas no congresso que reuniu pesquisadores de quase 60 universidades, tomou conhecimento do problema com sua aluna no domingo. Enviou fax para a imigração espanhola no aeroporto de Madri, confirmando que Patrícia participaria do congresso. A mesma carta enviou ao consulado brasileiro em Madri. Ele também providenciou para que o hotel em Lisboa enviasse às autoridades espanholas a confirmação da reserva da aluna. Não recebeu resposta alguma.
Bonita, 1,72 m, magra, branca, a estudante trajava jeans, botas de caminhada e blusa de lã quando chegou a Madri. “Para mim, o que aconteceu foi uma demonstração de preconceito social e sexual”, diz.
No congresso, segundo Robilotta, o constrangimento abateu os cientistas. “Sabe-se que a Espanha é destino de mulheres cooptadas por redes de prostituição, o que o governo de lá quer legitimamente combater, mas o que ocorreu com a Patrícia foi claramente preconceituoso contra brasileiros, mulheres e jovens.”
Solidário com a estudante, o físico Franco Buccella, da Universidade Federico 2º, de Nápoles, protestou: “A mãe dos imbecis está sempre grávida”.
“O congresso era a primeira reunião teórica internacional de que participaríamos para falar do nosso trabalho em torno da partícula sigma. Era nosso début e a Patrícia trabalhou duro na preparação da apresentação”, depõe Robilotta.
“Patrícia tem nossa solidariedade em face do ultraje a que foi submetida”, diz o diretor do Instituto de Física da USP, Alejandro Toledo. Para ele, além de ter ferido direitos de uma cidadã brasileira, a deportação caracteriza uma ameaça ao projeto de internacionalização da USP, que pretende ampliar o relacionamento com centros de alto nível em outros países.
Patrícia já anuncia ação contra o governo espanhol por danos morais e materiais. Também protestará contra o consulado brasileiro em Madri. “Eles não fizeram seu trabalho.”
Consulado brasileiro e setor de imprensa do serviço de imigração espanhol estavam fechados quando a reportagem tentou contato telefônico.

Fonte: Folha de São Paulo. Laura Capriglione

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Uma resposta to ““Foi preconceito social e sexual”, diz física”

  1. Renato Camurça said

    Mas como é que uma pessoa viaja pra Europa com 490 euros, sem reserva paga de hotel (“voucher”), levando um folhetim de seminário ? que ela queria ? tinha certamente que encontrar um culpado pela incúria, pelo descuido, pela autoconfiança exagerada … Outra perguntinha: onde estão as provas do que ela falou ?? neguinho tá acostumado a atirar pra tudo quanto é lado sem prova. Vai fazer isso nos Estados Unidos pra ver o que acontece ?

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