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Combateram o tráfico, esqueceram a máfia

Posted by Daniela Alves em maio 5, 2008


O crime organizado movimenta 20% da economia mundial, segundo o FMI. Os principais dirigentes dessa economia ilícita são os oligarcas russos. Em 20 anos, apesar da luta ferrenha contra a droga, houve uma ascensão dessas organizações criminosas em todo o mundo, inclusive no Brasil.

O caminho para os mafiosos foi pavimentado pelo combate sem tréguas à droga, e a permissividade absoluta de toda atividade empresarial e financeira, acelerada depois da queda da União Soviética.

O modelo de criminalização americano foi exportado com a padronização global de leis contra o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro e com a criação de uma Força-Tarefa de Ação Financeira (FATF na sigla em inglês) para lutar com grande êxito contra a lavagem de dinheiro.

Mas mesmo tempo, exportava-se o modelo anglo-americano de liberalização financeira, desregulamentando enormes fluxos de capital enquanto equipes de economistas de Chicago aterrissavam na antiga URSS e seus satélites para ajudar reformistas como Igor Gaidar na privatização relâmpago de suas economias.

Vinte anos depois, fica claro que essa combinação particular de proibição e liberalização coincidiu com uma ascensão inédita do crime organizado e uma economia na sombra tão globalizada quanto a do McDonald’s e da Toyota.

Muito dinheiro
Essa atividade paralela é responsável por 1 em cada 3 ou 4 euros gastos em escala mundial (entre 17% e 25% do PIB mundial), segundo estimativas do FMI. “É difícil quantificar, mas o dinheiro ilícito alcança bilhões de dólares”, disse John Carlson, da FATF.

Grande parte dessa economia criminosa – explica Misha Glenny em seu novo livro “McMafia” – é administrada por máfias, muitas delas em países ex-comunistas, que financiam uma ampla gama de atividades criminosas: tráfico de heroína, cocaína, pirataria, carros roubados, armas, prostituição, órgãos humanos, animais exóticos em risco de extinção…

Glenny apresenta uma galeria terrível de personagens que habitam essas economias sem lei e que fazem sua própria história universal da infâmia. Como Tsvetomir Belchev, chefe de uma máfia de tráfico de mulheres que contrata garotas como camareiras na Bulgária e as obriga a trabalhar na chamada rota da vergonha de prostituição entre a Alemanha e a República Tcheca.

Ou Dawood Ibrahim, gângster indiano de Bombaim que aproveitou o colapso do socialismo de mercado para traficar primeiro com ouro e depois drogas, e transformou Dubai no centro mundial de lavagem de dinheiro. Outro personagem é Leonid Kuchma, o mafioso ex-primeiro-ministro da Ucrânia, que mandou liquidar um jornalista: “Deportem o imbecil e o tirem do caminho”. Seu cadáver apareceu meses depois.

Bandidagem russa se espalha

Os verdadeiros chefões da do crime organizado no mundo são os oligarcas russos mais ou menos ligados a mafiosos, que aproveitaram tanto as privatizações de empresas na antiga União Soviética – denunciadas como “saque de bens públicos” pelo prêmio Nobel de economia Joe Stiglitz – quanto o tráfico de drogas e de armas.

Em meados dos anos 90, calcula o jornalista britânico Misha Glenny, até 50% da economia russa eram movimentadas pelo submundo do crime organizado. Moscou era a cidade com mais automóveis Mercedes-Benz registrados no mundo.

Custava 5 mil euros eliminar um rival. Agora estamos na fase de “internacionalização desse capitalismo gângster russo”, diz Glenny. A queda da URSS e os mercados mundiais pouco controlados causaram um incrível crescimento do crime organizado nas últimas duas décadas.

O proibicionismo ajudou os gângsteres quase tanto quanto o laissez-faire nn . Ao erradicar a coca em um país, ela se deslocou para outro. Enquanto os EUA armavam a Colômbia, no Canadá se cultivava maconha até um número equivalente a 5% do PIB da província da Columbia Britânica.

Israel é hoje o centro mundial de produção de ecstasy. Pablo Escobar morreu, mas depois de quase 40 anos de guerra contra a droga “o consumo e a dependência são mais altos que nunca”, explica Glenny. A guerra contra o terror teve um efeito semelhante no Afeganistão, onde o cultivo da heroína cresceu de forma espetacular.

Por tudo isso, “não é descabido pensar que em vez de proibir as drogas e permitir a livre circulação de capitais, se deveria fazer justamente o contrário”, explica o criminologista Michael Woodiwiss, da Universidade de Bristol. “Seria preciso aplicar duras regulamentações sobre os mercados financeiros”.

Para o criminologista, os americanos deveriam saber disso: “Durante a proibição (do álcool) e a permissividade financeira, o crime foi endêmico”. Quem pôs fim a ele não foi Elliot Ness, mas a regulamentação do mercado, a criação do FBI e em geral as políticas sociais do New Deal de Roosevelt, observa o criminologista britânico.

  • laissez-faireEm tradução direta do francês significa “deixar fazer, deixai passar”. É a teoria segundo a qual os governos não devem interferir na maioria das transações econômicas.“Sem o crime não haveria transição russa para o capitalismo”

    No livro “McMafia, o Crime sem Fronteiras”, Misha Glenny faz uma radiografia e uma profunda revisão do crime organizado em escala global, que segundo ele começa com a queda da poderosa União Soviética e a decomposição da Iugoslávia, e repassa o funcionamento e a trajetória das principais organizações mafiosas do planeta. Para Glenny, é surpreendente como as máfias aparecem na Rússia e na Europa do Leste para suprir um Estado que desmoronou.

  • Por que, no livro, o senhor chama a máfia de “parteira do capitalismo” na Rússia?
    Sim, nada teria se movido na economia russa sem a atuação das máfias. E quando digo “proteção” é exatamente isso. Não foi um caso de extorsão contra empresários, mas os próprios proprietários das empresas procuraram os gângsteres para que cuidassem do funcionamento da economia.
  • A utopia anarquista morreu: é o Estado ou a máfia?
    (Risos) Bem, não sei se eu diria tanto, mas no caso do bloco soviético posso assegurar que não haveria transição para o capitalismo sem o crime organizado.
  • É chocante a visão sinistra que se tem de Vladimir Putin na Europa diante do retrato que o senhor faz.Bem, Putin só poderia chegar dez anos depois da transição russa. É preciso considerar que para dezenas de milhões de cidadãos russos a década de 1990 foi um autêntico pesadelo; basta dizer que a esperança de vida diminuiu para 58 anos. Tudo desmoronou, os bancos, a segurança. Putin se propôs construir a partir dessa decepção e recuperar a autoridade para o governo, mas não se livrou das máfias, e sim as colocou sob o teto, sob a tutela do Estado.
  • Na Europa Ocidental, o presidente russo é reconhecido simplesmente um homem que fecha o registro do gás…
    Creio que a Rússia está entrando em uma terceira fase na qual Putin e Medvedev (presidente eleito) se propuseram a limpar o setor energético de seu país tanto de máfias como da influência estrangeira. Putin sabe que não pode competir com os EUA em uma corrida armamentista, mas sim de energia. As pessoas dizem na Europa Ocidental que isso é pouco democrático, mas mantemos o comércio energético com a Arábia Saudita, que não pode ser considerada um paradigma de sociedade democrática.
  • Fonte: Jornal A Gazeta

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    Uma resposta to “Combateram o tráfico, esqueceram a máfia”

    1. Lorrainny Rosa said

      Oi Daniela, tudo bem?
      Me chamo Lorrainny, e achei seu blog muito interessante…
      E por coincidencia, preciso fazer um trabalho relacionado ao tema: As máfias e o crime organizado.
      Será que posso copiar algumas coisas do seu blog?
      Seria de grandeeee ajuda ! ;)
      Responde no meu e-mail depois?
      simplesmentelo@hotmail.com
      Beijo.
      Lorrainny.

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