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FLIP: ‘Crime é forte onde o Estado é fraco’, diz Misha Glenny

Posted by Daniela Alves em julho 5, 2008


O título do livro que o repórter da BBC de Londres Misha Glenny veio lançar nesta 6ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) é uma alusão clara à relação íntima entre a globalização e o crime: McMáfia: crime sem fronteiras (Companhia das Letras). A obra é muito mais do que um combo caro e indigesto: é o primeiro tratado sobre a formação do crime organizado no mundo. Glenny teve a idéia de rastrear a formação dos grupos mafiosos internacionais – ele pesquisou o narcotráfico do Brasil, a escravização sexual em Israel, a corrupção política dos EUA, entre outras superestruturas – depois de acompanhar a desestruturação do comunismo no Leste Europeu e de assistir à transformação da Iugoslávia em uma colcha de retalhos em chamas. O trabalho deixava uma lição: onde o Estado e as instituições democráticas fraquejam, toma força o corpus da corrupção e violência. Misha Glenny vai dividir a mesa de debates com o jornalista Caco Barcellos, sob mediação de Paulo Markun, amanhã, às 15h. Ao JB, Misha antecipou as questões que discutirá em Paraty.

 

Você começou a pesquisa sobre a história do crime organizado depois da queda do comunismo. E uma das teses do seu livro é a de que não existe crime organizado sem o apoio do Estado. No fundo, organizações criminosas funcionam todas da mesma maneira?

 

– Não acredito que não haja crime sem o apoio do Estado. Argumento algo levemente diferente: o crime organizado emerge com poder onde o Estado e as instituições democráticas fraquejam. Quando houve o colapso do comunismo no Leste Europeu, a habilidade do Estado de funcionar normalmente entrou em colapso, por pelo menos 10 anos. Como as instituições públicas e a polícia não trabalhavam eticamente, outras forças preencheram o vácuo – lutadores, veteranos de guerra, seguranças (a polícia secreta em particular) – pessoas perderam o emprego. Eles passaram a controlar o mercado, algumas vezes a favor das novas classes econômicas emergentes no Leste Europeu, das quais os representantes mais ricos ficaram conhecidos como oligarcas. Então, o crime organizado é forte onde o Estado é fraco. Mas é até mais forte quando um Estado poderoso apóia, permitindo ou patrocinando, este ou aquele grupo organizado. A regra é que os grupos crescem onde o Estado é fraco. Um Estado fraco é capaz apenas de limitar ações e isto é corruptível.

 

O Estado brasileiro, é, portanto, fraco.

 

– O Estado brasileiro dá sinais de fraqueza – você pode ver isso nas favelas. A polícia fica na entrada, mas não entra. Eles reconhecem que traficantes controlam as favelas, e controlam melhor do que eles.

 

O livro detalha o processo de corrupção da polícia búlgara quando o país perdeu o caráter comunista. Nota-se uma engenharia criminosa similar à dos grupos de milícias brasileiros. Eles também controlavam os moradores, a rotina dos bairros, e vendiam segurança que deveria ser provida pelo Estado.

 

– A situação brasileira é complicada – graças, em parte, à história do país, desde a ditadura. Com o Estado ideologicamente focado em repreender os direitos democráticos, os militares viveram uma profunda e corrupta intimidade com o crime organizado. Quando a democracia foi retomada, o Estado já estava infectado. E ainda há um problema grave de discrepância da riqueza no Brasil, uma das maiores desigualdades do mundo. Pessoas pobres que vivem em favelas têm muito pouca lealdade ao Estado e até à democracia, já que lhes é provido tão pouco. E ainda há o problema de o país ser rota do tráfico dos cartéis colombianos. Mas não apenas a polícia brasileira e as estruturas políticas tendem à corrupção; o esforço entre ações para impor a lei fazem com que policiais tenham um árduo caminho.

 

Hoje o tráfico de drogas já é um Estado paralelo?

 

– Os narcóticos representam indústria global imensa que se espalhou por muitas áreas nas últimas duas décadas. Também tiveram um efeito desestabilizador em diferentes partes do mundo, de modo mais catastrófico no Norte do México e no Afeganistão. Nestas regiões, a indústria de drogas tem estado perto de sobrepujar o Estado. Não apenas os talibãs se beneficiam do tráfico de heroína afegã. Membros do governo, da administração municipal e da polícia estão profundamente envolvidas com a distribuição e a venda do produto. A origem do problema consiste na guerra contra as drogas, promovida por Washington. Só se pode aspirar uma política para sufocar a produção e o consumo de narcóticos quando se detém a capacidade combinada de estratégias de desenvolvimento para uma alternativa econômica. E o mundo não tem nenhuma. Os problemas relacionados a drogas enfrentados pelos países ocidentais, no entanto, não são nada comparados com a devastação que o mercado de drogas ilícitas causa em nações produtoras como Colômbia, ou países de passagem, como Brasil ou África do Sul. Em muitas áreas, o comércio de narcóticos, de fato, criou um Estado paralelo que enfraquece o desenvolvimento social e a capacidade de se impor a lei, enquanto estimula a corrupção e o colapso social. Embora vozes que pedem revisão sobre a guerra contra as drogas estejam aumentando, aqueles que apóiam essa política nociva continuam influentes.

 

 

Qual é a revelação mais polêmica e importante no livro?

 

– O crime organizado está mais próximo das pessoas do que parece – economias lícitas e ilícitas se cruzam de diferentes formas. Mas a mais importante é as pessoas saberem como ex-levantadores de peso e ex-pugilistas olímpicos da Bulgária se tornaram reis do crime em seu país depois de 1989.

Fonte: Jornal do Brasil

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