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Jornalista Júlio Ludemir mergulha na sombria rede do tráfico de órgãos

Posted by Daniela Alves em dezembro 18, 2008


Bolívar Torres, JB Online

 

RIO – Eis a pitoresca e cosmopolita cena: um brasileiro pobre de Recife se encontra, num hospital da África do Sul, com um milionário judeu de Israel, para quem vai doar seu rim. É o primeiro – e último – encontro antes da operação, e ambos choram, se abraçam e tiram fotos. Por mais estranha que pareça, a situação é verídica e está descrita em Rim por rim, reportagem romanceada sobre o tráfico de órgãos, do jornalista Júlio Ludemir.

O escritor achava que chegara ao limite ao mergulhar no universo indigesto do crime organizado, retratando as relações promíscuas entre o Comando Vermelho, líderes comunitários, ONGs, policiais, artistas, moradores de comunidades e os traficantes, tema de obras anteriores. Mas descobriu assuntos mais sombrios quando entrou em contato com a rede global do tráfico de órgãos, que viaja pelos países pobres à procura de fornecedores – consentidos ou não – para os doentes do Primeiro Mundo.

Diante da amplitude do assunto, resolveu focar sua pesquisa nos detalhes da conexão Pernambuco-África do Sul, que no início da década se instalou em Recife aliciando fornecedores de órgãos entre a população pobre local.

– Achava que não tinha mais para onde ir como narrador – garante Ludemir. – Mas, quando entrei em contato com essa história, fiquei sem teto. Cada personagem que eu entrevistava me fazia achar a história mais surpreendente. É um tema que permite até uma abordagem pop, mas eu me interessei pelo lado mórbido.

Crime global

O tráfico de órgãos é um fenômeno recente: até pouco, só existia no imaginário popular – no Recife, aparecia sob a figura do “papa-figo”, personagem que as mães usavam para assustar os filhos que teimavam em voltar tarde para casa. Com o aperfeiçoamento dos transplantes, porém, abriu-se um novo mercado. Havia a tecnologia, havia pessoas dispostas a pagar, mas faltava matéria-prima, ou seja, doadores.

A conexão investigada por Ludemir ligava três pontos do planeta. O primeiro são os doentes com dinheiro vindos do Japão, países do Golfo e Israel, onde restrições culturais e religiosas dificultam a coleta de doadores; o segundo é a África do Sul, com infra-estrutura hospitalar, mas leis enfraquecidas, possibilitando que as cirurgias sejam realizadas. E o terceiro é a periferia do Recife, onde a população humilde se mostrava disposta a trocar uma parte do seu corpo pelo sonho de uma vida melhor. Depois de aliciados, os moradores eram levados para uma clínica em Johanesburgo (África do Sul), entrando em contato pela primeira vez com uma cultura estrangeira.

– É o crime mais global que se pode imaginar – acredita Ludemir. – Chegou-se a criar um “turismo do transplante” para os milionários. Há tempos já deixou de ser lenda urbana.

Seguindo as pistas do drama pernambucano, Ludemir mostra a realidade, a penúria e os sonhos da parte mais baixa do turismo do transplante. O autor encontra personagens fascinantes, como o ex-pedreiro que com os US$ 15 mil trocados por seu rim construiu um pequeno patrimônio comprando casas na região, ou o desempregado que teve a recompensa confiscada pela polícia sul-africana e ficou circulando perdido em terra desconhecida logo após a operação.

Sem passar a mão na cabeça de ninguém, retrata a ingenuidade de uma população que ignora que “vender rim” é um crime. São esses personagens – e o contexto no qual se inserem – que ajudam a revelar a questão: por que, afinal, alguém é capaz de vender seu próprio rim por um punhado de dólares?

– Resolvi escrever a narrativa sob o ponto de vista das pessoas entrevistadas, porque essa história não me pertence, não consigo imaginar o que é estar na situação de ter que vender um rim – admite o autor. – A venda de órgãos virou uma espécie de corrida do ouro. Todo mundo queria vender um rim para poder abrir seu negócio, melhorar de vida… Virou uma solução mágica. Mas a maioria ficou sem nada. Gastou tudo em prostituta, bebida ou no templo de consumo da cidade, o Shopping Recife.

Inesperados laços afetivos também surgem pelo caminho. Sensibilizados com a situação extrema, muitos dos aliciados criam vínculos com membros da organização contratados para ampará-los (como tradutores ou enfermeiros) e acabam se transformando mais tarde em aliciadores. As relações entre fornecedores e compradores também rendem momentos peculiares.

– É uma relação interessante, mas diferente – define Ludemir. – Quem recebe o rim estabelece uma relação fria, quer que o outro suma. Quer esquecer que tem uma parte de alguém dentro do seu corpo e que deve a vida a essa pessoa. Já com os fornecedores é o contrário. Muitos deles se emocionaram me mostrando a foto do receptor, que levam até hoje na carteira. Criam um laço familiar, que não é recíproco.

Salvando vidas

Durante as entrevistas, muitos personagens não mostraram arrependimento de ter se lançado na aventura, defendendo o direito natural de se desfazer das partes de seu corpo. O principal argumento de defesa do capitão Ivan, uma das cabeças da organização, e que liderou a maior parte dos aliciamentos, foi a de que seu negócio, na verdade, salvava a vida tanto do comprador quanto do vendedor. São questões que o livro de Ludemir deixa no ar, provocando uma polêmica: a venda de órgãos deve permanecer um crime ou ser regulamentada?

O autor já tem uma opinião:

– Não posso apoiar um mercado no qual apenas o pobre vende. Mas escrever o livro me fez mudar de idéia sobre as conseqüências de se doar um órgão. Mesmo sem um rim, os fornecedores continuam bebendo. Chegavam a dar entrevista bebendo cerveja. E também continuavam a praticar esportes. Tenho muito menos medo de doar agora.

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