Blog – Daniela Alves

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Platini em defesa dos valores desportivos

Posted by Daniela Alves em novembro 28, 2008

A estabilidade da especificidade do desporto e da autonomia das federações desportivas na legislação da União Europeia (UE) – a contribuição da UEFA para o “fair play” financeiro no futebol europeu –, a luta contra o tráfico de jovens futebolistas, assim como a proibição de transferências dos jogadores menores de 18 anos. Foram estes os elementos fundamentais do discurso do Presidente da UEFA, Michel Platini, perante os ministros do Desporto dos 27 países da União Europeia (UE), realizado em Biarritz, França, na sexta-feira.

Acção firme e decidida
Platini apelou aos ministros e às autoridades políticas do Velho Continente para agirem de forma firme e decidida em todas estas áreas, para ajudar a defender, proteger e preservar os valores desportivos na Europa. O Presidente da UEFA garantiu que o futebol europeu irá contribuir para a construção da Europa do futuro e insistiu que este desporto – adorado por milhões de cidadãos europeus – não pode ser encarado simplesmente como uma actividade económica ou um produto.

O desporto é específico
“O desporto não pretende estar acima da lei”, explicou Platini aos ministros, “mas é específico. Não é uma actividade económica como qualquer outra. O desporto tem a ver com a partilha, a superação pessoal, troca e respeito. Apela às emoções. O futebol é um jogo, não apenas um produto ou um mercado. É um espectáculo, antes de ser um negócio”.

Europa tem de mudar a atitude
“A equidade do desporto e o equilíbrio da concorrência não podem sujeitar-se às leis arbitrárias do mercado. A Europa tem de mudar a sua atitude – inspirar-se no desporto, em vez de lhe impor modelos ideológicos que foram criados noutras áreas”.

Modelo desportivo europeu
“Como bons cidadãos europeus, pedimos que nos ajudem a convencer a Comissão Europeia a adoptar orientações que nos permitam continuar de acordo com as leis europeias, mas sem comprometer a nossa autonomia, pois necessitamos de ter mais certezas em termos jurídicos para avançar. Só desta forma será possível proteger o modelo desportivo europeu, baseado numa estrutura piramidal, a solidariedade financeira e o princípio das subidas e descidas de divisão, que são sinónimos de competições abertas a todos – grandes e pequenos, ricos e menos ricos…”.

“Fair play” e transparência financeira
Platini abordou depois a questão do “fair play” e transparência financeira. “Os regulamentos fiscais na Europa são extremamente diversificados. Os sistemas de licenciamento, controlo e gestão financeira dos clubes de futebol envolvem uma enormidade de conceitos e regulamentos diferentes”, explicou.

Princípio da subsidiariedade
“A UEFA não vai tentar encontrar uma solução para a harmonização fiscal na Europa. A UEFA não vai impor o seu sistema de licenciamento às suas federações filiadas nas competições nacionais. Não vamos fazer isso, porque estamos tão empenhados quanto vocês no princípio de subsidiariedade”, explicou o Presidente da UEFA aos ministros.

Melhorar o sistema de licenciamento da UEFA
“Contudo, o que a UEFA pode fazer – e estamos a pensar seriamente em fazê-lo – é reforçar e melhorar o nosso sistema de concessão de licenças nas nossas competições de clubes. É desta maneira que pretendemos contribuir para o “fair-play” financeiro e começar a corresponder às expectativas das diversas partes envolvidas no nosso desporto”.

Tráfico de crianças
Platini também manifestou a sua preocupação com a protecção e a educação dos jovens futebolistas. “Hoje, no Mundo e na Europa, o tráfico de crianças é uma realidade. Não vou escolher palavras doces, pois a situação é grave. Como qualificar um fenómeno (…) no qual crianças com 12 ou 13 anos são retiradas do seu ambiente e da sua cultura para participarem num negócio, recebendo um pagamento em troca? É isto que está a acontecer no futebol…”.

Proibir a transferências de menores
“Em conjunto com a FIFA, estamos à procura de soluções, mas já podem ser implementadas medidas para proibir as transferências internacionais de menores, mesmo dentro da UE. Vários países europeus têm regras rígidas que impedem os clubes, sob a ameaça de sanções desportivas, de desviarem jovens jogadores das academias de formação de equipas rivais. No entanto, esse tipo de regras não existe na União Europeia”.

Situação precária
“Aquilo que os clubes europeus não podem fazer nos respectivos países podem fazê-lo nas nações vizinhas, em África ou na América Latina, com consequências desastrosas para os centros de formação e o bem-estar psicológico e educação dos jovens atletas. Se tivermos em conta que menos de um em cada dez jovens que passam pelos centros de formação dos clubes consegue atingir o estatuto de profissional, pode-se compreender a natureza precária da sua situação e a importância de terem uma educação que os prepare para a vida para além do futebol”.

Questões urgentes
“É neste contexto que gostaria de ser capaz de proibir as transferências internacionais de jogadores com menos de 18 anos no seio da UE. Isto não é criar um obstáculo à livre circulação de trabalhadores – é uma questão urgente para ajudar jovens em perigo”.

Etapa importante e histórica
“Esta reunião em Biarritz pode ser simplesmente apenas mais uma reunião”, afirmou Platini aos ministros na conclusão do discurso. “Ou, pelo contrário, Biarritz pode representar uma etapa importante e histórica na defesa dos valores desportivos europeus – que são os valores da própria Europa”.

Fonte: http://pt.uefa.com/uefa/keytopics/kind=64/newsid=779905.html

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Futebol fecha olhos a tráfico de africanos

Posted by Daniela Alves em julho 12, 2008

O título do jornal The Independent chamava a atenção: «Chefes do futebol procuram travar tráfico de crianças africanas». A notícia dava conta da preparação do texto de uma convenção, a ser assinada pelas 27 ligas europeias de futebol, e em que as organizações se comprometiam a erradicar este negócio sujo dos seus clubes.

O que se passa, na realidade? Diz o jornal que os jovens africanos são aliciados pelo sonho de serem estrelas de futebol, como alguns dos seus conterrâneos. Quando os «olhadeiros» garantem aos pais que o filho tem futuro na bola, que chuta como nenhum outro, muitos deles fazem das tripas coração para financiar a sua viagem para um desses eldorados. Moussa Ndiaye, da Associação Senegalesa de Futebol, conta ao Independent como tudo se processa: «Estes rapazes são baratos comparados com os jogadores europeus. vale sempre a pena mandar 100 a um Teste de Captação – mesmo que só fique um ou dois, o traficante amortiza os gastos. Os outros são abandonados na rua.»

O estado das Nações, da nossa e das outras, revela-se sobretudo pela moralidade e a ética com que agem nestas situações. Na prática, diz a acusação, os responsáveis por muitos clubes optam, nestes casos, por não fazer demasiadas perguntas. Subitamente revelam-se alérgicos a papéis e a burocracias. Sem família, estas crianças são um «bem» a rentabilizar, e nada distingue esta prática de outras formas de escravatura. Continue lendo »

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Submundo do futebol

Posted by Daniela Alves em abril 3, 2008

Por Landa Araújo. Jornalista. landaaraujo.blogspot.com

No país de craques como Pelé, Ronaldinho e Kaká, o Brasil tornou-se vitrine para clubes internacionais interessados em jogadores cada vez mais jovens. A possibilidade de viajar para o exterior e ganhar muito dinheiro é o sonho de milhares de garotos. A mudança de realidade para um futuro promissor pode se tornar um pesadelo para vários meninos que aceitam propostas no exterior e acabam abandonados sem nenhum auxílio.

Na máfia do futebol, muitos acordos com clubes sem expressão ou a não adaptação à vida no exterior podem tornar a vida destes jovens um pesadelo. A maior dificuldade destes jogadores que não despontam é tentar sobreviver com outras atividades, mesmo sem falar o idioma local.

“Existem muitos trabalhando como garçons, lavando pratos ou cantando pagode. Alguns se prostituem. Sempre existiu esse tipo de problema. Eu presenciei muitos jogadores que chegaram a Portugal e o nome do clube era outro”, diz Walter Machado Filho, o Waltinho, que jogou no Flamengo na década de 80 e durante 11 anos em Portugal. Atualmente ele é professor de dois projetos de futebol, um no Complexo da Maré e o outro na Praia de Copacabana.

O coordenador executivo da organização de Direitos Humanos Projeto Legal, Carlos Nicodemos, diz que há casos de atletas de futebol desaparecidos: “De acordo com dados da Confederação de Clubes de Futebol (CBF) existem 282 pessoas desaparecidas no mundo, jogadores que saíram para jogar na Ucrânia e em outros países”.

há casos de jogadores desaparecidos
Carlos: há casos de jogadores desaparecidos

Vítimas do tráfico de pessoas

Tratados como produtos, esses jovens são vítimas da rede de tráfico de seres humanos, mais conhecido como TSH. Rodrigo Paiva, assessor da CBF, afirma que este é um problema mundial e que há uma preocupação das instituições que respondem pelo futebol no mundo. De acordo com ele, não se pode proibir que alguém tenha um representante para as negociações, mas o ideal é que seja um agente credenciado pela Federação Internacional das Associações de Futebol (FIFA): “Muitos vão sem garantias. Estamos preocupados, porque eles (agentes) usam uma série de artifícios. Contratam os pais para trabalhar fora e driblam qualquer tipo de prevenção”, diz.

Há um ano, uma instituição francesa de Direitos Humanos, Culture Foot-solidaire, denunciou ao Parlamento Europeu, através de um dossiê, a presença de 600 jovens da África e Brasil em situação irregular na Europa.

“Essas crianças foram levadas junto com as suas famílias em um procedimento que visa empregar os pais para que esses adolescentes fiquem em observação, para ver se podem ser comercializadas, ou não, como jogadores de futebol”, afirma Carlos Nicodemos. O especialista reapresentou a mesma denúncia em um congresso internacional na Espanha, que aconteceu em janeiro deste ano. A União das Associações Européias de Futebol (UEFA), afirma a urgência nas tomadas de providências, mas nada foi apresentado até o momento.

Outro problema relacionado ao tema, é a de que os pais muitas vezes são encaminhados para trabalhar em regiões distantes do local de treinamento dos filhos e explorados como mão de obra desqualificada: “Em nosso relatório, noticiamos casos em que os pais são agenciados em subempregos, em postos de trabalho desqualificados e horários indefinidos, para os filhos permanecerem no país”, completa Nicodemos, que termina em julho um estudo sobre o tema. “O tema é muito pouco desenvolvido quanto a isso, estamos montando uma agenda como medidas de enfretamento ao tráfico de adolescentes”, informa.

Pressão da família influência

O treinador Waltinho conta que muitos pais o procuravam para oferecer benefícios em troca da aceitação do filho: “Tinha mãe que se insinuava, o pai querendo pagar churrasco”. Para ele, a culpa de vários meninos irem para o exterior muito cedo é reforçada pela ganância dos parentes: “Muitos estão apenas preocupados com o dinheiro e não pensam se o filho vai ficar bem, se alimentar”.

é preciso ficar alerta com ofertas
Waltinho: é preciso ficar alerta com ofertas

Na opinião do agente de jogadores, Anselmo Paiva, que faz as articulações de clubes internacionais e jogadores brasileiros, os pais se iludem por causa da “indústria de sonhos”.

“Vivemos em um País muito pobre e os pais, normalmente, não conseguem visualizar o menino como médico, para eles é mais fácil vê-lo como jogador. Alguns acreditam que o filho vai passar a ganhar R$ 50, 100 mil reais por mês e joga para o garoto a total responsabilidade de salvar a família que muitas vezes insiste, mesmo se ele não levar jeito para o esporte”.

Rosângela Moreira da Silva é mãe de João Marcos Batista, de 14 anos, volante da categoria infantil do Fluminense e diz que “já ouviu falar do tráfico de jogadores pelas reportagens na televisão”. Ela diz que analisa bem as ofertas de agentes liga para pessoas do ramo, questiona com outras mães e não dá nenhuma resposta na hora da abordagem.

“Eu já recebi propostas, mas tenho medo de entrar em furada. O Clube (Fluminense) sempre alerta os pais. A Federação deveria ter uma conduta sobre isso, muitas crianças estão saindo mais cedo por causa da lei Pelé. Os empresários deitam e rolam”, finaliza Rosângela, que não quer que o filho abandone os estudos em hipótese alguma. “Eu cobro dele seriedade para que se dedique ao futebol, mas se ele não quiser mais, eu apoio a fazer o que bem entender”, diz.

Rosângela cobra seriedade do filho
Rosângela cobra seriedade do filho

Agentes credenciados – melhor solução

A CBF e a FIFA credenciam agentes, através de uma prova de seleção, uma maneira de identificar os empresários aptos ao setor de articulações internacionais. Mesmo assim, Anselmo Paiva deduz que apenas 30% dos empresários no mercado possuem registro, o que equivale a cerca de 300 credenciados. O cadastrado pelos órgãos FIFA/CBF traz mais garantias para o jogador, pois o empresário cumpre algumas tarefas como fazer um seguro de vida e fica sujeito à multa, suspensão e advertência se algo de errado acontecer ao atleta.

Também cabe ao agenciador, ajudar nas despesas do jovem atleta, como chuteira, plano de saúde e outras necessidades que não podem ser arcadas pela família. O retorno do investimento vem com o pagamento da instituição esportiva que comprou os direitos do passe do jogador.

Anselmo alerta que nem toda proposta sugerida é de qualidade: “Alguns empresários prometem que vão levar para Portugal e Itália. Na maioria das vezes são clubes pequenos”.

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